Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

MINIMALISMO
Resumido

11.1.14

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 12


RACHAEL
Estou em frente ao escritório de Thomas Hansson. É um lugar imponente, com portas gigantescas de algo que parece chumbo. Tudo é muito moderno e tecnológico aqui e quase todos usam roupas de cores escuras. James pressiona um botão e as portas se abrem, como portas de elevador.
   Eu entro em uma enorme e bonita sala. Há seis pessoas aqui, três sentadas de cada lado que me olham com ceticismo. Todos são homens altos e fortes, exceto uma mulher. Ela mantém uma sobrancelha levantada e é pálida como a morte. Loira, olhos azuis claríssimos e os lábios num batom vermelho bem forte. Eu desvio os olhos dela e foco em um homem de meia idade na minha frente. Pela primeira vez na minha vida eu estou de cara com a causa de tudo o que aconteceu comigo e com a minha família. Thomas Hansson. O chefe da mafia.

"Chefe,"
   - James diz e só então eu percebo a semelhança. Thomas se parece com Morgana, James se parece com Thomas e os três tem o mesmo sobrenome. Devem compartilhar um grau de parentesco muito próximo.
"Essa é..."

"Rachael Vaccari."
   - Thomas o interrompe.
"Não precisa me informar. Eu a reconheceria em um milhão de anos."



O canto da minha boca imediatamente se contorce em um sorriso. Ele continua:

"Sente-se, senhorita Vaccari."
   - Eu me sento.
"Podemos começar com você me dizendo o porquê de ter vindo aqui."

Eu olho de soslaio para as outras pessoas que estão presentes. Ninguém diz uma palavra e todos olham para mim. Eu respondo:

"Eu ficaria mais confortável se pudesse conversar com o senhor em particular."

Ninguém se mexe.
Thomas mantém o seu olhar em mim por alguns segundos e depois diz:

"Saiam daqui. Todos."

  E eles saem prontamente. Um por um. Alguns lançam olhares ácidos para mim, inclusive a mulher loira, mas nenhum se atreve a questionar a ordem do chefe. James é o último a sair e quando as portas se fecham, Thomas me diz:

"Mais algum pedido? Quem sabe um pouco de vinho?" - sorrio.

"Vejo que é um homem bem humorado, chefe."
   - Digo, frisando o 'chefe'.
"Mas apesar da proposta ser tentadora, vou recusar o vinho. Creio que já pode imaginar o porquê da minha vinda, ou estou errada?"

"Especifique."

"Eu disse a um dos seus lacaios e o digo agora que a minha relação com a Liza não anda muito bem há um tempo considerável."

"E por causa disso, a senhorita decidiu traí-la?"

"Não gosto da palavra 'trair'. É um termo muito torpe."
   - Respondo.
"Prefiro me referir a isso como uma espécie de negócios."

"E como todo negócio, um acordo só pode ser firmado se for vantajoso para ambas as partes."

"Exatamente."
     - Digo, com um sorriso.
"Você tenta capturar a Liza faz quanto tempo mesmo? Dez, quinze anos? Que vergonhoso... Um dos mais temidos mafiosos da Europa não conseguiu pegar uma mocinha?"

"O que você quer em troca dos seus serviços?"
    - Ele pergunta, indo direto ao ponto.

"Simples. Quero que você deixe o meu filho em paz. Eu sei que você sabe que tenho um."
 
"Não devemos esquecer que ele também é um Vaccari."

"Ele nunca será um Vaccari, mesmo portando o nome."
   - Solto.
"Por favor, ele está sendo criado pelo panaca do meu ex-marido, jamais saberá o verdadeiro significado de seu sobrenome. A Liza que é uma ameaça. Você deveria se preocupar com ela e não com uma criança de cinco anos."

Thomas me observa em silêncio. Ele está calculando seus próximos passos. Está decidindo se deve confiar em mim.

"James,"
   - Thomas diz num aparelho pequeno, algo parecido com um interfone.
"Quero você na minha sala. Agora."

      Não demora nada para que a porta se abra e um homem de mais ou menos 1.85m passe por ela.

"Sim, chefe."
   - James diz; sua voz é grave e atraente.

"Ela está sob sua inteira responsabilidade."
    - Thomas diz, apontando para mim.
"Rachael Vaccari é uma de nós agora."

LIZA
Quando eu chego em casa, a primeira coisa que vejo é Beth. Fumando. Ela me olha de soslaio e logo volta sua atenção no cigarro. Eu me sento em sua frente e Beth fica me encarando. Jogando a fumaça do cigarro bem em cima de mim. Só para provocar.

"E então?"
   - Ela finalmente diz, percebendo que não reagi a suas provocações. Eu continuo calada e ela completa:
"Descobriu o que queria?"

"Seria muito mais fácil se você apenas me contasse. Eu não precisaria sair escondido e nem ir atrás da Alicia Hinnendel."
   - Eu digo. Ela continua lá, me encarando.
"Não precisa de mistérios comigo. Você sabe que eu vou descobrir, de um jeito ou de outro."

"Eu acho que ainda estou tentando pôr nessa sua cabecinha que isso é perigoso. Que o melhor que pode fazer é deixar isso para lá e esquecer que esse diário existe."

"Se você o considera tão perigoso, porque simplesmente ainda não o destruiu?"
    - Pergunto. Beth dá de ombros e fala:

"Eu não tinha por quê fazer isso, sabe? Ninguém sabia a existência do diário, ele estava bem escondido e ninguém iria tomá-lo da minha mão. Nós tínhamos uma boa relação, até você chegar."
   - Ela então abre a boca e uma boa quantidade de fumaça sai de lá. Subindo, se espalhando, até desaparecer.
"Eu pensei em queimar o diário depois daquelas suas perguntas; mas, então, você foi mais rápida que eu."

"Então, já que não há mais jeito, ele já está comigo e eu não irei abrir mão dele... Porque você não acaba com isso e me conta logo o que sabe?"
   - Solto.
     E o que vem logo em seguida não é a voz rouca de Beth. É um estrondo. Forte, ecoando pela casa. Provavelmente vindo do térreo. Nós duas nos entreolhamos e Beth sibila, tirando a arma do coldre:

"Você, não sai daqui, entendeu?''

Então ela abre a porta e sai, seus passos lentos e silenciosos.

*
Dois minutos depois, Beth volta, tão silenciosa quanto foi. Eu não ouço mais nenhum estrondo, e começo a pensar que nada aconteceu. Mas é só observar o rosto de Beth para se convencer do contrário.

"Sobe. Agora."
   - Beth ordena, sussurrando. Eu obedeço. Ela sobe atrás de mim e me guia até o seu quarto. Eu observo ela trancar a porta; há inúmeras perguntas pairando na minha mente, mas eu permaneço calada, sem objetar. Eu apenas deixo que Beth tome as rédeas. Ela olha para mim e me estende seu revólver.

"Acha que pode usar uma arma?"
   - Ela pergunta, séria, sem aquela velha acidez em seu tom de voz.

Eu pego o revólver de sua mão e meu corpo responde aos sinais. Meus dedos envolvem a arma e meu indicador voa direto para o gatilho. É a primeira vez que eu toco em um revólver em anos. Eu deveria ter perdido a prática, mas o meu corpo sabe bem o que fazer e eu aponto para a porta, enquanto Beth começa a arrastar alguns móveis.
   Eu olho algumas vezes para Beth e entendo porque ela arrasta os móveis. É uma parede falsa. Ela empurra e dá alguns socos até que uma porta de mais ou menos 1,30m se abre. A porta é estreita e dá para um lugar muito escuro. Vai ser difícil passar ali.

"Vamos, me ajude."
    - Beth diz, ofegante, enquanto arrasta alguns móveis para a porta. Então, eu a ajudo e ela continua a falar rapidamente:
"Se tivermos sorte, saíremos daqui antes que eles entrem no quarto. Eles vão passar pela saída de emergência, mas nós já estaremos fora."

Nós colocamos o criado mudo e algumas cadeiras na passagem da porta. Então, Beth pede para que eu vá na frente e quando estou me agachando para passar pela pequena porta, ela me detém.

"Está com o diário?"

Então eu me dou conta de que ainda estou com minha bolsa. Suspiro de alívio.

"Sim."
  - digo e ela me dá um tapinha no ombro de aprovação.

E assim, nós saímos.
Há uma escada. Está tudo realmente escuro, exceto pela entrada de luz que sai pela porta. Sons de passos pesados ecoam aqui. Eles estão vindo. Eles iram nos pegar se eu não for rápida. Beth está com a arma. Eu posso sentir sua vibração. Há muito, muito tempo eu ouvi dizer que nosso corpo libera energia o tempo todo. Eu posso visualizar, mesmo sem poder vê-la, os seus olhos arregalados, tentando enxergar através do escuro.

"Eles já estão aqui. Estão forçando a porta do quarto, então, seja mais rápida."
   - Ela sussurra.

Meus pés pinicam com a necessidade de me apressar, mas é difícil andar em meio as trevas. Um degrau, depois outro, depois outro. Meu coração bate tão rapidamente e tudo está tão silencioso aqui embaixo que tenho a impressão de que Beth possa ouvi-lo. Meus pés avançam novamente até encontrar terreno plano. Beth pede passagem. Eu abro caminho. Eu sei bem o que fazer. Nos posicionamos em cada lado, Beth com a arma em punho. Então, ela dá um chute na porta que cai no chão como um pedaço de madeira apodrecida. Ela aponta a arma e sai, aos poucos. Então, quando está tudo limpo, ela me diz sob os ombros:

"Saia!"

E depois disso, nós corremos.
Assim que eu bato a porta do carro, o som dos tiros começam a preencher meus ouvidos. Pelo modo como Beth xinga, eles estão fortemente armados. Ela arranca com o carro, cantando pneu e uma perseguição começa. Fugindo da morte mais uma vez depois de anos. E quando você pensa que tudo está estável e pode permanecer assim por um bom tempo, a caçada recomeça.
Minha busca ao passado é perigosa, foi o que Beth disse.
Então, porque tudo estaria estável?

"Há uma coisa que você precisa saber."
    - Beth diz, assim que consegue despistá-los.
"Existem duas grandes famílias que mandam nessas bandas; Vaccari e Hansson. E elas não são nem um pouco amigas."

"Acha que foram eles? Os Hansson?"
   - Pergunto. Ela nega com a cabeça.

"Não. Os Hansson não tem nada a ver com esse ataque."

"Então, quem seria?"
 
"Vaccaris."
    - Ela diz e eu levanto uma sobrancelha. Ao ver minha expressão confusa, explica:
"Outra coisa que você também precisa saber. Os Vaccaris não são tão unidos quanto pensa."

Eu jurei caçar os assassinos dos meus pais.
Vaccaris ou Hanssons, seja lá quem forem.
O problema é que agora, quem me caça são eles.