Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

MINIMALISMO
Resumido

16.1.14

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 13


RACHAEL
Eu observo um pequeno banner pousado na mesinha de centro. Foi a primeira coisa que reparei assim que cheguei no apartamento de James. Eu estou sob sua responsabilidade, o que é uma espécie de custódia, portanto, tenho que ficar aqui. Confesso que a ideia de dividir apartamento com ele não é uma ideia tão má assim.
  O que me chama a atenção é que o tal banner é na verdade, um mapa. Eu aproveito o pequeno momento de distração de James - o único, desde que cheguei - para analisá-lo melhor. Trata-se do mapa da cidade, onde há vários pontos vermelhos com uma série de números e letras escritos bem acima. Eu leio o nome das ruas e descubro que o número que corresponde ao nosso apartamento é o 1379np. Eu então vejo outros pontos vermelhos, o que, suponho eu, corresponde a outros apartamentos. Thomas sabe onde colocar o seu pessoal. Ele espalhou seus lacaios estrategicamente por toda a capital. Em todos os cantos do mapa há pelo menos um ponto vermelho. Fico imaginando a forma como ele está nos rastreando agora. Talvez ele esteja em sua sala futurista, me observando enquanto analiso esse mapa.

"Sabe, a curiosidade não é uma coisa que apreciamos muito por aqui."
    - Ouço a voz de James soar atrás de mim. Eu me viro para ele tranquilamente e o vejo encostado à porta do banheiro. Há um pequeno detalhe: James tirou a camisa. Meus olhos percorrem seu peito nu, o abdômen definido e depois focam novamente em seu rosto. Ele não me olha como se estivesse flertando; ele está sério. Exercendo seu papel como um bom soldado: me vigiar.



"O que são todos esses pontos?"
    - Pergunto com ares de inocência, ignorando sua crítica a minha curiosidade.
"Eu não consigo entender."

"Você não engana ninguém."
    - James responde, rindo da minha pseudo-inocência.

"É verdade, eu sou um livro aberto. Minha incapacidade de esconder coisas das pessoas me torna um tipo inofensivo."

James me encara com ceticismo; depois balança a cabeça e diz:

"Essa é a primeira vez que vejo uma Vaccari trabalhar para os Hanssons."

"Você sabe, se eu pudesse escolher entre nascer como uma Vaccari e nascer como uma Hansson, eu com certeza escolheria o segundo."
   - digo. Ele se aproxima de mim.

"Não minta."
   - ele sussurra, seu hálito quente contra a minha orelha.
"Eu sei que você está aqui por muito mais do que apenas salvar o seu filhinho."

Eu abro a boca para dizer algo, mas a fecho na mesma hora.
A voz de Thomas começa a soar na minha mente como um aviso: "eu estou observando você" e então eu sorrio e solto:

"Está tendo uma ideia errada de mim, James. O que mais eu desejaria além de salvar a vida do meu filho?"

"E a sua parentela?"
   - Ele cospe, se afastando de mim.

"Eu não tenho uma parentela."
   - respondo.

"Mas tem a Liza."
   - ele rebate.

"A Liza não significa nada para mim."
   - Garanto. James se cala. Eu posso ver o contorno do seu maxilar travado.

"Suas roupas estão ali."
   - James diz, apontando para uma porta preta envernizada.
"Eu sugiro que se arrume logo."

*
A porta na verdade era um closet. Havia muitas peças de roupa, a grande maioria de cores escuras. O estranho é que todas as roupas e calçados tinham o meu número exato. Me pergunto por algum tempo como ele poderia saber disso. O fato é que depois de limpa, maquiada e vestida num tubinho preto, James me encaminha para sua BMW e então, em pouco tempo estamos de volta ao escritório de Thomas Hansson.

"Isso é loucura."
   - Vejo a moça loira dizendo, sua atenção completamente em Thomas até vê-lo desviar os olhos para o local por onde James e eu entramos. Ela crava seus olhos azuis em mim, revira os olhos e diz:
"Ótimo, acabei de descobrir que Vaccaris não são pontuais."

Então, Thomas diz:

"Rachael e James, sentem-se."

E nós nos sentamos.

"Chefe, com todo respeito, será que não percebe o quanto isso é perigoso? A casa é muito bem protegida, é quase impossível um ataque bem sucedido."
    - Ela continua dizendo e eu me distraio imaginando que sua íris poderia se misturar com a esclera, exceto pelo círculo escuro que contorna o azul claríssimo de seu olho.

"Quase."
   - Thomas retruca. Ela bufa e insiste:

"Mas, chefe..."

"Sharon."
   - Thomas diz, sua voz um pouco mais alta e severa do que de costume.
"Já chega."

E ela se cala e senta em uma das poltronas, visivelmente contrariada.

"Então, creio que devo explicar o que a adorável Srta. Hansson estava objetando agora pouco."
   - Thomas diz olhando para mim e frisando o "adorável" com tom de ironia, o que irrita Sharon mais ainda. Percebo também que ela é uma Hansson. Mais uma.

"Nós temos um pequeno problema, que começa com essa mulher."
    - Thomas continua. Ele aperta um botão, e então um rosto sorridente aparece como um holograma. Uma mulher. Morena. Olhos castanhos. Cabelos longos. Mais uma que está marcada para morrer na lista do chefe.
"Ela se chama Lucy Chevalier. Com certeza você já deve ter ouvido falar nesse sobrenome, simplesmente pelo fato de que a família Chevalier tem uma rede de bancos espalhados no mundo inteiro. Eles sabiam quem nós eramos. O pai dessa garota fazia várias transações e negócios comigo. Eles nos abriram portas. Nós lhes protegemos. Ela só precisava andar na linha. Mas ela jogou tudo para o alto e teve um caso com um Vaccari."

"Que garota burra; com tantos homens disponíveis e ela vai namorar um Vaccari."
     - Um homem diz. James sussurra o nome dele para mim. Nick Tardin. Francês. Pelo menos não é um Hansson.

"Nós lhe avisamos de todas as formas, eu lhes dei várias chances de se redimir e colocar a filha nos eixos. Mas ele não conseguiu, portanto, o nosso pequeno acordo está quebrado."
   - Thomas continua.
"O fato é que nós temos uma missão para hoje à noite, Rachael, e você faz parte dela."

"O que eu terei que fazer?"
   - Pergunto. Ele sorri.

"Invadir a mansão de Lucy Chevalier."

LIZA
Beth me manda parar depois de muito tempo dirigindo. Estamos em frente à um prédio que eu nunca vi na vida, mas, que parece bem familiar para ela. Beth gira a maçaneta e uma quantidade considerável de poeira sai dali. Eu nunca imaginei que Londres poderia abrigar prédios tão deteriorados como aquele. São poucos e raros, mas, existem. E por não serem percebidos, se tornam ótimos esconderijos para pessoas como nós.
  Beth sobe uma escada em espiral e eu a sigo, sem dizer uma palavra. Ela também não me diz nada, o que me irrita, porque eu quero saber em que solo estamos pisando. Ela não saca a arma, apesar de tudo parecer suspeito. Então ela abre uma porta e a visão de dois homens - um bebendo vodka, jogado num sofá velho e outro sentado, com os pés apoiados sob uma mesa - não a surpreende.

"Beth Vaccari!"
   - O homem sentado atrás na mesa diz, se endireitando imediatamente.
"Meu Deus, você sumiu por tanto tempo que eu nunca pensei que fosse vê-la novamente."

"Oláááá Beth."
   - O outro homem diz, visivelmente bêbado. Beth se dirige a ele, toma a garrafa de vodka, bebe um gole e diz:

"Você não toma jeito mesmo, Jon."

"Olha, não é como se você nunca bebesse."
    - Ele se defende.

"Eu bebo, não fico jogada que nem um mendigo feito você."
    - Beth diz.

"Então Beth, será que você poderia me dar um pouco de atenção e me dizer quem é essa bela moça que veio com você."
   - O rapaz sentado na mesa diz, sorrindo para mim. O tal de Jon, bêbado e fedido como um gambá, solta uma risada estridente e diz:

"Olha só, ele ainda continua tentando..."

"Ela é Liza Vaccari. Isso mesmo que você tá pensando. A filha da Jennifer; mas, ela não é para o teu bico."

"Ela se parece muito com a mãe, por isso que o Marty está tão encantado."
    - Jon diz, e por um segundo ele parece sóbrio. Eu olho para Beth, sem entender o rubor no rosto de Marty. Ela revira os olhos e diz:

"Ela não sabe, Jon."

"Ah, é claro, como eu não pensei nisso antes, é claro que ela não sabe."
    - Jon diz e toma outro gole da garrafa que já passou da metade.

"O que é que eu não sei?!"
   - Solto, irritada com todo o falatório. Jon gargalha e diz:

"Pelo menos ela não é tão calma quanto a mãe..."

"O imprestável do Marty já foi apaixonado pela Jennifer, Liza."
    - Beth finalmente diz. Jon solta:

"Ele ainda é, eu bem que tento enfiar na cabeça dele que ela está morta, mas..."

Meu coração dói. É doloroso lembrar que a minha mãe está morta.
E Beth percebe isso, porque ela passa um olhar aborrecido para Jon e desvia o assunto:

"Na verdade, eu vim aqui porque quero que você faça uma coisa para mim, Marty."

"O que?"
    - Ele pergunta displicente.

"Eu preciso de duas passagens aéreas hoje à noite para o Brasil."