Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), minimalismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução. Se você for suficientemente observador, verá que esta bio é diferente da bio do ano passado.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

25.9.15

[RESENHA] O guardião de memórias


Inverno de 1964. Uma violenta tempestade de neve obriga o Dr. David Henry a fazer o parto de seus filhos gêmeos. O menino, o primeiro a nascer, é perfeitamente saudável, mas o médico logo reconhece na menina sinais da síndrome de Down. Guiado por um impulso irrefreável e por dolorosas lembranças do passado, o Dr. Henry toma uma decisão que mudará para sempre a vida de todos e o assombrará até a morte: ele pede que sua enfermeira, Caroline, entregue a criança para adoção e diz à esposa que a menina não sobreviveu. Tocada pela fragilidade do bebê, Caroline decide sair da cidade e criar Phoebe como sua própria filha. E Norah, a mãe, jamais consegue se recuperar do imenso vazio causado pela ausência da menina. A partir daí, uma intrincada trama de segredos, mentiras e traições se desenrola, abrindo feridas que nem o tempo será capaz de curar. Com uma trama tensa e cheia de surpresas, O guardião de memórias vai emocionar e mostrar o profundo – e às vezes irreversível – poder de nossas escolhas.
  
Para começar, digo que em O guardião de memórias há o mesmo estilo aplicado em Morte Súbita – para quem não entendeu, vide resenha –; trata-se de uma trama mais parada, com pontos quase inexistentes de ação, mas que foca muito no particular de cada personagem. Vou confessar que não dei nada por esse livro quando comprei, talvez por conta do meu “trauminha” com livros de drama, mas ultimamente venho gostando desse tipo de leitura mais analítica, o que significa que a estória me surpreendeu da melhor forma possível.

No começo é um pouco difícil captar a cronologia da trama, apesar do ano em que a estória aconteceu esteja bem explícito na sinopse e no início dos capítulos, então, muitas vezes a gente se pega raciocinando como se os personagens fossem desta época. Apesar de não se tratar de um livro do século XVIII ou IX, o pensamento sobre algumas coisas era muito antiquado, a ciência não era tão avançada e o preconceito referente aos portadores da síndrome de Down era muito pior. Essas circunstâncias, aliadas aos traumas com relação à perca da irmã mais nova, leva David Henry a fazer o que fez com a filha, Phoebe.

O primeiro capítulo – que tem o formato muito parecido com o de um prólogo – apresenta David e Norah Henry como um casal perfeito, numa zona de conforto; David, cirurgião ortopedista, com um bom emprego e uma boa casa, e Norah, numa aconchegante redoma de vidro sobre a sua realidade, que envolvia os cuidados com a gravidez e o marido, e as eventuais visitas de sua excêntrica-para-os-padrões irmã, Bree. O interessante de tudo isso é ver a mentira relacionada ao nascimento de Phoebe forçando-os a enxergar a si próprios, seus traumas, defeitos e limitações, e o tormento que essa nova “consciência” cria.

O mesmo acontece com Caroline Gil, a enfermeira que decide levar a menina para casa depois de constatar que o orfanato não era um lugar tão recomendável para um bebê naquelas condições. Ela abandona a cidade, o apartamento, a vida estável para mudar-se para Pittsburg, que coincidentemente é a cidade natal de David. Casa-se – uma decisão que tinha deixado de fazer parte de seus planos –, e ajuda a criar uma espécie de ONG de apoio a crianças com síndrome de Down. Cria Phoebe como uma filha, que contra todas as expectativas, sobrevive e têm uma vida basicamente normal.

“Com profunda vergonha, ele se deu conta de que a pena que sentira de Phoebe, assim como a suposição que sua mãe fizera da dependência dela tinham sido tolas e desnecessárias. Phoebe gostava de si mesma e gostava de sua vida; era feliz.”

A mentira de David dá lugar a uma série de outras mentiras que o distanciam de sua mulher e filho, e ambos – Norah, David e até mesmo Paul – tentam superar a falta de Phoebe da melhor forma possível. Isso os leva a escolher caminhos que jamais imaginaram e estabelecer novas rotinas, nas quais eles são muito bem sucedidos, pelo menos no aspecto financeiro. Para alguém de fora, a família Henry parecia absolutamente normal e completa; os personagens em questão, de certo modo, gostavam de suas novas ocupações e tentavam, desesperadamente, preencher o vazio com elas.

Há poucos personagens adjacentes e o final não é aquele clichê que se imagina em livros de drama. O realismo do enredo e dos personagens é um dos pontos fortes da leitura, com todos os seus dilemas e a complexidade de seus conflitos internos. Não é uma leitura densa – eu a teria terminado em muito pouco tempo se não fosse pelas ocupações pessoais –, apesar do início ser um pouco parado demais, e há toda aquela lição envolvendo escolhas e redomas de vidro.

PS: Uma quantidade surpreendente de pessoas que me viram com esse livro confundiu O guardião de memórias com O doador de memórias, hehe.