Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

1.4.16

[RESENHA] Persuasão

O enredo deste empolgante livro gira em torno dos amores de Anne Elliot que se apaixonara pelo pobre, mas ambicioso jovem oficial da marinha, capitão Frederick Wentworth. A família de Anne não concorda com essa relação e a convence romper seu relacionamento amoroso. Anos após Anne reencontra Frederick, agora cortejando sua amiga e vizinha, Louisa Musgrove. "Persuasão" é amplamente apreciado como uma simpática história de amor, de trama simples e bem elaborada, e exemplifica o estilo de narrativa irônica de Jane Austen, sendo original por diversos motivos, entre eles, pelo fato de ser uma das poucas histórias da escritora que não apresenta a heroína em plena juventude. O romance também é um apanágio ao homem de iniciativa, através do personagem do capitão Frederick Wentworth que parte de uma origem humilde e que alcança influência e status pela força de seus méritos e não através de herança.




Então, já faz pelo menos uns 2 anos desde que eu li o último livro da Jane Austen (Razão e sensibilidade - vide resenha), e desde aquele período eu tinha incluído "Persuasão" na lista de livros que eu pretendia ler em algum momento da minha vida. Pois bem, o momento chegou. Apesar de todos os meus elogios feitos a Orgulho e Preconceito, o que até então era o meu livro preferido da autora, Persuasão superou tanto as minhas expectativas que se iguala a esse no meu nível de favoritismo.

Há toda uma expectação em volta desse livro, por ser considerado por fãs e críticos como o melhor livro da autora, mas confesso que todo esse entusiasmo com relação a leitura se quebrou um pouco quando li a sinopse, que não me interessou muito de início. Logo nas primeiras páginas, se nota aquilo que é tão característico das obras de Austen: a crítica sutil quanto à futilidade da alta sociedade europeia, embutida na construção do caráter de alguns personagens secundários. Os personagens em especial no qual esse tipo de artifício foi dirigido são os membros da família de Anne Elliot; o pai e as duas irmãs. Ambos tem pontos de vista e formas de julgamento tão equivocadas que beiram o rídiculo, com a vaidade extrema e ego inflado compartilhados entre o pai e a irmã mais velha, Elizabeth, e a carência e histeria da irmã mais nova, Mary.

O que é interessante sobre os pontos de vista dos personagens supracitados é que há todo um contexto histórico e social que norteia as motivações e argumentos desses personagens. Estamos falando de início do século XVIII, com a aristocracia inglesa dando sinais de ruína, perdendo espaço, aos poucos, para um novo tipo de ascenção social baseada na riqueza adquirida através do trabalho e não em títulos de nobreza hereditários. Enquanto uma quantidade de nobres andavam à beira da pobreza - o que era o caso da família da protagonista, com o pai com um título de barão -, "plebeus" enriqueciam cada vez mais e alcançavam posições e reputações desejáveis na alta sociedade. Isso fica claro na trajetória do comandante Wentworth; um marinheiro, sem título de nobreza, inicialmente pobre, passa a ser um bom partido a partir do momento em que faz riqueza na marinha inglesa.

“ – Sim, há dois pontos em que ela[posição/profissão na Marinha] me desagrada; tenho duas fortes objeções em relação à ela. Em primeiro lugar, por ser um meio de elevar pessoas de nascimento obscuro a lugares de imerecida distinção e de lhes conceder honras com que os seus pais ou avós nunca sonharam […]”

Outra característica comum em vários - se não todos - livros da Jane Austen é a personificação de sentimentos e valores nos protagonistas; eles assumem posições extremas, opostas, e mesmo com valores não tão opostos assim, as circunstâncias postas no enredo os colocam sempre em rota de colisão; o orgulho e o preconceito, a razão e a sensibilidade, e em Persuasão, a firmeza e a flexibilidade.

Anne Elliot e Frederik Wentworth, num primeiro momento, quando se apaixonaram, se encontravam numa situação em que o casamento deles seria praticamente inviável; Frederik, ainda pobre e no meio da guerra, não teria muitas condições psicológicas e financeiras de manter um casamento - e posteriormente, filhos - com algo próximo a estabilidade e conforto. Anne, ainda jovem e imatura, sofreria com a quebra de relações com sua família que se seguria caso ela se negasse a ceder à pressão de seu pai e sua amiga, casando-se mesmo sem seu consentimento. Entretanto, como estamos falando de extremos, Wentworth não suportou ao que considerava ser uma "fraqueza de caratér" e nutriu um forte ressentimento pela ex-noiva durante oito anos após o rompimento.

É nítido o amadurecimento e inteligência da protagonista no decorrer da história. Se em algum ponto Wentworth estava certo quanto à suposta fraqueza de Anne Elliot em se deixar ser persuadida com facilidade, essa fraqueza foi substituída por prudência; por mais que Anne discordasse de quase tudo o que pensava o pai ou a irmã, ela não se colocava em choque com nenhum deles pelo simples fato de que não valeria a pena, porque não os faria pensar de outra forma. A idade e a experiência de Anne lhe confere um equilíbrio que Frederik ainda não tinha alcançado, mas começa a alcançar no decorrer da história.

“Anne perguntou a si própria se nalgum momento lhe viera à ideia pôr em causa a legitimidade da sua opinião anterior a respeito da felicidade e da vantagem de firmeza de caráter; e se não lhe ocorrera que, tal como todas as qualidades morais, esta devia ter as suas proporções e limites. Ela pensou que ele não poderia deixar de pensar que, por vezes, um temperamento maleável concorria tanto para a felicidade quanto uma personalidade obstinada."

Persuasão é talvez o livro que mais deixa claro a pauta de equilíbrio e tolerância que faz parte dos livros da Jane. Personagens que começam em posições extremas, tem a oportunidade de enxergar as circunstâncias por outros ângulos e notar que nem todas as suas mais fixas opiniões eram tão corretas quanto imagavam. Apesar dos meus elogios e imensas recomendações quanto a essa leitura, não tenho a pretensão de dizer se Persuasão é de fato o melhor livro da Jane; creio que ninguém possa responder isso. Preferência é uma das coisas que variam de acordo com as lentes e o gosto de cada um.