Linda Martins, 18, Salvador. Livros (os que leio e os que escrevo), cristianismo, estudos aleatórios e comida definem minha vida. Em constante evolução.

ENTREVISTA
Rudson Xaulin

RESENHA
Um beijo inesquecível

AUTORAIS
Baed

25.9.16

[RESENHA] Um beijo inesquecível

Toda a alta sociedade concorda que não existe ninguém parecido com Hyacinth Bridgerton. Cruelmente inteligente e inesperadamente franca, ela já está em sua quarta temporada na vida social da elite, mas não consegue se impressionar com nenhum pretendente.
Num recital, Hyacinth conhece o belo e atraente Gareth St. Clair, neto de sua amiga Lady Danbury. Para sua surpresa, apesar da fama de libertino, ele é capaz de manter uma conversa adequada com ela e, às vezes, até deixá-la sem fala e com um frio na barriga.
Porém Hyacinth resiste à sedução do famoso conquistador. Para ela, cada palavra pronunciada por Gareth é um desafio que deve ser respondido à altura. Por isso, quando ele aparece na casa de Lady Danbury com um misterioso diário da avó italiana, ela resolve traduzir o texto, que pode conter segredos decisivos para o futuro dele.
Nessa tarefa, primeiro os dois se veem debatendo traduções, depois trocando confidências, até, por fim, quebrarem as regras sociais. E, ao passar o tempo juntos, eles vão descobrir que as respostas que buscam se encontram um no outro... e que não há nada de tão simples e de tão complicado quanto um beijo.

Depois de um hiatus que durou eras, finalmente eu volto a resenhar mais um livro da série Bridgertons, série essa que está prestes a terminar, com - depois dessa resenha - apenas um livro restante. Confesso que li esse livro há muito, e fiquei procastinando a resenha por mais tempo do que deveria, mas foi uma surpresa descobrir que a versão da Arqueiro modificou o título original - "Por um beijo", na tradução em português - por "Um beijo inesquecível". No final das contas, o título atual combina mais com a história em si.

Uma das características pessoalmente favoráveis neste livro é a constante aparição de Lady Danbury, mais presente aqui do que em todos os enredos anteriores e posteriores a esse; isso se dá, obviamente, pela amizade estreita entre a condessa e a protagonista feminina, Hyacinth Bridgerton, que compartilha de várias qualidades - e ouso dizer, defeitos - com a amplamente conhecida senhora. Julia Quinn mantém um estilo de narrativa estável em todos os livros que compõem a série; envolto em doses de humor, o drama se revela em forma de experiência familiar dolorosa que cria marcas em um dos protagonistas. No caso, o personagem que carrega essa característica é o protagonista masculino, Gareth Saint Clair.

Apesar da narrativa ocorrer em terceira pessoa, há algo de muito pessoal e próprio do personagem em todas as suas cenas individuais, sempre narradas com uma espécie de humor autodepreciativo. Essa autodepreciação é na verdade um reflexo de como o próprio Gareth se enxerga; menor, inferior, não tão capaz ou merecedor de alguma coisa boa. Esta característica soa cômica nas cenas iniciais, mas adquire ares "sombrios" ainda no início, quando seus problemas começam a ser expostos ao leitor. Entretanto, mesmo depois de todo o processo de auto-subestimação em que o personagem se coloca, não há vitimismo ou sentimento de autopiedade nele. O narrador não te permite sentir pena do Gareth; ele tem seus conflitos internos, mas não está tentando te convencer de que ele é a pessoa mais sofredora do mundo. 

Em contrapartida, Hyacinth é apresentada na narrativa de forma totalmente oposta ao Gareth, exalando satisfação e uma auto-confiança até um tanto "ingênua" - coisa que você nota no decorrer da história -. Ela é a irmã mais nova de oito membros de uma das famílias mais influentes da alta sociedade inglesa, possui um bom relacionamento com sua mãe e irmãos, tem ligações sociais que envolvem suas irmãs duquesas, condessas, baronesas e possui uma afiada inteligência que por vezes ajuda a nutrir seu ego. Apesar de seus rompantes de auto-suficiência, Hyacinth não é desagradável ao leitor; a narrativa consegue transmitir o carisma da personagem que neutraliza suas doses de arrogância. 

"– Não sei como o faz, Hyacinth, mas por mais irritante que seja, sempre consegue ser encantadora." (Bridgerton, Penelope)

Ainda que suas descrições e vivências sejam opostas, os personagens não soam como polos, e apesar de soar como uma fórmula conhecida, a história não se torna clichê pela forma como o romance desenrola. Ambos possuem personalidades parecidas, e o romance se desenvolve gradativamente, com pequenas doses em meio à amizade que é construída no decorrer do livro. Esse romance lento, construído em bases sólidas de amor ao invés de repentina paixão, é padrão em todos os livros da série, mas não em todos os livros da autora. Por vezes, o enredo também lança informações sobre o comportamento e o estilo de vida da alta sociedade da época, especialmente quanto às normas de etiqueta feminina vigentes naquele período.

"Ela se moveu ligeiramente no assento, o que achou interessante, pois a maioria das mocinhas eram formadas desde muito tenra idade para manter-se absolutamente imóveis. Descobriu que gostava mais por sua inquieta energia; ele também era o tipo de pessoa que se surpreendia tamborilando sobre uma mesa quando estava distraído."

Em níveis diferentes, ambos apresentam seus problemas e inseguranças, e assim como em outros livros da série, esses conflitos e marcas passam por um processo de reflexão e "tratamento", conforme o romance se desenvolve. Observando pela sinopse, o livro apresenta uma fórmula muito clichê: o protagonista masculino mulherengo, mas com problemas pessoais, e a protagonista feminina confiante e decidida que vai ajudá-lo a fechar suas feridas; entretanto, Julia Quinn pega um modelo de história a estilo fanfic e desenvolve de forma que o romance não soa batido ou forçado. Não há sentimentalismo exagerado, e apesar de leve, a história é convincente ao leitor, assim como os personagens.

Para quem acompanha a autora em outras obras, é nítida a evolução entre suas obras mais antigas e atual série Bridgertons, em especial, neste volume. Sua evolução se mostra em particular na construção de personagens femininas ativas, capazes de controlar suas emoções, racionais, mas não indiferentes. Elencando todas as características da série e suas qualidades, Julia Quinn emerge como uma boa escolha para aquele romance leve e plausível.